Impermanência
Quando o que vale não é o que fica, mas o que acontece uma vez e não se repete.
Certas experiências em nossas vidas não podem ser guardadas, replicadas ou revisitadas. Acontecem uma vez, passam e deixam apenas a memória.
É exatamente isso que o mundo do luxo está tentando replicar: a impossibilidade de fixação.
Restaurantes de três meses, menus que nunca se repetem, hotéis instalados só para uma estação, eventos que não serão editados em vídeo, coleções que não voltam para o estoque. É como se o valor estivesse menos na exclusividade fabricada e mais na vida curta de algo que não tenta durar.
Um exemplo foi o Kitchen Table x Domaine Chapel & Krug que aconteceu do dia 18 a 21 de novembro, onde o restaurante duas estrelas Michelin em Londres, comandado por um casal, recebeu uma vinícola de Beaujolais (comandada por outro casal) para quatro noites de menu especial inspirado em clássicos franceses, harmonizado com seus vinhos e cuvées. Os dois casais se uniram para celebrar o legado do pai de David Chapel, o lendário chef francês Alain Chapel, detentor de três estrelas Michelin recriando alguns de seus pratos mais icônicos.
O luxo não é possuir. É estar presente.
Essa nova onda do luxo acredita na beleza particular em saber que aquilo que você está vivendo não existe fora daquele momento. Um jantar temporário em Londres. Um bar experimental em Nova York que opera num subsolo e muda completamente a carta a cada final de semana. Uma residência gastronômica em Tóquio que só funciona durante o verão, dentro de uma casa tradicional, para um número mínimo de convidados.

Nada disso está ali para sempre. Tudo está ali por enquanto. E, por isso mesmo, tem peso. Essa lógica se espalhou pela moda e pelas artes. As coleções cápsula que nunca retornam, por exemplo, representam essa ideia na forma mais pura: peças criadas para existir em um momento específico e nunca mais. Sem a intenção de se tornarem “clássicos”, elas carregam a assinatura do instante em que foram concebidas. Não são feitas para sobreviver ao tempo, mas para marcar um ponto no tempo. É o oposto do acúmulo.
Quanto mais o mundo se torna digital, replicável e infinito, mais desejadas se tornam as experiências que começam e terminam.
Essa impermanência devolve intensidade à vida. Obriga presença. Restaura a ideia de que o valor está no encontro, não na posse. A raridade não está na quantidade, mas no tempo. Viver algo que não retorna é lembrar que a própria vida funciona assim. Algo que em Valência, na Espanha, é comemorado todo ano com as festas das Fallas.
No fim das contas, talvez seja por isso que o luxo da impermanência soe tão contemporâneo: ele não inventa nada, só reforça uma verdade antiga com novos gestos.





Adorei saber sobre o tema
Interessante, como é bom adquirir conhecimento!